O lado estratégico de Quique Flores

Como se pode ler na imprensa de hoje, Quique conseguiu o melhor registo de resultados do Sport Lisboa e Benfica dos últimos 13 anos.
É de facto um registo significativo e que poderá ter algum peso se nos atrevermos a fazer alguma futurologia.

Quando se deu o pontapé de início desta época desportiva cedo os responsáveis encarnados pediram tempo para a equipa.
O treinador era novo, tinham muitos jogadores contratados e como tal ainda pouco adaptados, etc.
Pela forma de estar de Quique os adeptos decidiram dar esse tempo e manter a esperança. As exibições mediocres de início de temporada não abalaram em demasia a estrutura encarnada, também ela muito bem protegida por Rui Costa, um Símbolo do Clube, alguém inatacável ou acima de qualquer suspeita.

Com o passar do tempo o Benfica mesclou boas exibições com exibições menos boas, bons resultados com resultados menos bons.
Nessa altura, como já é hábito, alguns comentadores desportivos (atrevo-me a dizer que nunca na vida lhes chamaria isso) mudavam de discurso todas as semanas. Ora numa semana o Benfica era fantástico, tinha uma equipa muito forte, ora na semana seguinte o Benfica era uma equipa pouco consistente, com graves lacunas.
Como não sou de me deixar influenciar por alguns desses pseudo comentadores fui avaliando a progressão no jogo dos encarnados, de forma imparcial, e creio que tem sido um processo evolutivo.
Com isto o que quero dizer é que se percebe que os jogadores estão cada vez mais familiarizados com o modelo que Quique Flores quer implementar mas por outro lado se percebe que Quique conhece cada vez melhor as características dos seus jogadores e encontra novas soluções para problemas que a equipa ainda apresenta.

E é exactamente no contexto deste maior conhecimento mútuo que vos falo resumidamente de uma das opções recentes de Quique.
Partindo do princípio que continuo a achar que o Benfica tem algumas debilidades e alguns dequilíbrios a nível de plantel, no Académica – SL Benfica o treinador encarnado provou duas coisas: a primeira é que tem consciência de algumas das debilidades da sua equipa. A segunda é que está acompanhado por uma estrutura de apoio forte (tal como Katsouranis referiu esta semana na imprensa), que lhe permite conhecer de uma forma mais vincada os adversários.

Assim Quique “no papel” fez alinhar a seguinte equipa:



Um qualquer adepto desatento diria que Quique optou por manter o 4-4-2 clássico, jogando da mesma forma que no passado.
Contudo mesmo mantendo o seu modelo de jogo intacto, um treinador pode alterar a sua estratégia para uma determinada partida. Essa alteração pode ser feita de variadas formas, mas uma das formas mais usuais é alterando uma ou outra peça do onze e fazendo uso das características de cada jogador que entra nas contas do treinador.

Se analisarmos o onze, Bynia aparece no meio campo como opção de última hora (lesão de Katsouranis) mas David Luiz é escolha consciente e livre do treinador para ocupar a posição de lateral esquerdo.
Tendo em conta que Jorge Ribeiro tem sido opção e tem cumprido, poderia causar alguma estranheza a opção do treinador Espanhol por um central a lateral.

Opção David Luiz
Quanto a mim uma das grandes debilidades do Benfica da era Quique prende-se exactamente com as transições ataque-defesa.
Sem entrar em grandes detalhes, o Benfica utiliza dois laterais com grande pendor ofensivo, mas que defensivamente apresentam algumas lacunas.
Quando a equipa se encontra em pleno processo ofensivo e perde a posse de bola, é frequente registarmos um espaço enorme nas costas dos laterais encarnados para explorar, a equipa parte em dois, ficando demasiado espaço para o adversário jogar e progredir no terreno.
Consciente destas lacunas e demonstrando bom conhecimento do adversário, Quique colocou David Luiz como lateral esquerdo no sentido de dar mais consistência defensiva e no sentido de parar as investidas do rápido e perigoso Sougou, provavelmente o jogador com mais recursos da Académica.

Para percebermos um pouco melhor, reparem na dinâmica da equipa no momento ofensivo e reparem nos equilíbrios defensivos que a inclusão de David Luiz como lateral esquerdo permite:



Como podem ver David Luiz fecha numa zona mais central fazendo um bloco de três unidades defensivas. Este equilíbrio defensivo teórico no caso da perda de posse, permite que Maxi aproveite de forma mais frequente e assumida a faixa direita, explorando o espaço que Ruben Amorim “cava” com movimentos interiores constantes.
Amorim, ao partir da faixa direita para o meio coloca um enorme dilema ao lateral adversário: acompanha o adversário (o que aconteceu algumas vezes, pq em Portugal raras são as equipas que defendem verdadeiramente á zona) e aí assiste-se ao arrastamente do lateral da Briosa abrindo espaço para Maxi penetrar, ou liberta Amorim o que acabou por baralhar a organização da equipa de Domingos Paciência.

Como podem ver, sem abdicar dos princípios de jogo que vem implementando desde o início da época, Quique, através de uma alteração estratégica ,conseguiu equilibrar melhor a equipa em termos defensivos e desorganizar de forma eficaz a equipa da Académica em termos ofensivos.

Imagino a sua felicidade quando assistiu do banco ao primeiro golo encarnado, uma vez que foi o exemplo prático daquilo que pensou para o jogo:
Amorim saiu da faixa para zonas interiores, Maxi explorou o espaço, e Nuno Gomes fez uma assistência para golo ao colocar a bola entre o central e o lateral adversário (q com a movimentações quer de Amorim quer de Maxi se perdeu) onde apareceu Amorim que de forma simples fez o primeiro golo dos encarnados.


Assinado
Nelson Oliveira

1 comentários:

Bruno Pereira disse...

Boas Nelson!

é com agrado que te "vejo" de volta a blogosfera, com os teus posts com a clareza do custume.

Estarei atento a este blog, como já estava ao outro.

Aquele abraço