Barreira social, o futebol como escape

"Um treinador que só percebe de futebol, de futebol nada sabe" (Mourinho, 2007)

Penso nesta frase e divago sobre as múltiplas realidades subjacentes ao nosso desporto, realmente à muito que este se alarga para além da vertente desportiva e hoje em dia são variadas as áreas que estão ligadas ao futebol, havendo até estudos de toda a espécie tendo como ponto de partida o desporto rei. Por isso mesmo já longe vão os tempos em que este desporto se resumia ao jogo em si, hoje em dia qualquer treinador, director, ou outro membro ligado a este fenómeno necessita de compreender um vasto leque de realidades que estão ligadas à prática desportiva.

Já neste espaço foi falado da vertente económica do jogo e eu aproveito para explorar a realidade social dos seus intervenientes, algo que de certa forma está interligado ao primeiro tema.

Tendo começado a minha carreira como treinador há relativamente pouco tempo, tentei (e continuo a faze-lo) absorver o máximo de conhecimentos e experiências que me permitissem fazer um bom trabalho, nesse estudo aproveitei a experiência de dois amigos, colegas de profissão e entre conversas e leituras fui conhecendo novas ideias, projectos e acções que me deixaram realmente fascinado e ansioso para poder fazer o mesmo.

A pré-época começou e desde cedo tentei vincular as minhas ideias aquele grupo de miúdos que se apresentava perante mim, no entanto ao longo do tempo fui percebendo que não estava a dar certo, duvidei das minhas capacidades sem nunca duvidar das minhas ideias e projectos e no meio de tudo isto esqueci-me de um ponto fundamental: não existem duas pessoas iguais, não existem grupos iguais e por isso mesmo cada equipa tem a sua identidade. A minha é fortemente abalada pela realidade social onde está inserida, situada numa zona repleta de bairros sociais, com todos os problemas que daí advêm, a grande maioria dos meus miúdos é de origem pobre, de famílias problemáticas e vivem uma infância pouco feliz.

Os resultados de tudo isto são crianças muito frágeis psicologicamente, carentes emocionalmente, muito agressivas, pouco habituadas a conversarem, pouco tolerantes e com dificuldades para agirem socialmente de uma forma pacifica. Podem parecer exageros da minha parte mas a verdade é que essa atitude que exteriormente pode parecer “garra” e “vontade”, internamente é algo muito difícil de lidar e um desafio para se ultrapassar.

Aqui mais que o aperfeiçoar da táctica, mais que o moldar o jogo, é preciso primeiro conhecer cada miúdo, perceber os seus limites e estar preparado para tudo. Desde uma fraqueza emocional que gera choro e raiva à primeira perda de bola, até distúrbios completamente contra-natura por tudo e por nada.

Quem lida dia-a-dia com estes pequenos homenzinhos percebe o que estou a tentar explicar, chega a ser frustrante a sensação de impotência perante tamanha indisciplina, chega a criar amargura a repetição de acontecimentos como insultos e pequenas pancadarias entre um grupo jogadores que não são mais que crianças e é sobretudo surpreendente o choque que enfrentamos quando percebemos que para eles tudo isto é natural, tudo isto faz parte da vida que conhecem.

É muito difícil incutir numa criança que é maltratada (quase sempre sem fazer ideia do porquê) conceitos como fair-play, respeito pelo próximo, amizade, trabalho ou seriedade. A grande maioria destes miúdos vive revoltada, com vontade de explodir e com completo desrespeito pelas regras e condutas sociais. No fundo estão pouco habituados a serem felizes…

E por mais assustador que seja este cenário, fugir dele é a pior hipótese! Estas crianças necessitam de ajuda, de apoio, porque muitas vezes a bola faz a vida deles girar num caminho diferente, e esse é por norma muito melhor do que o destino trágico traçado no rosto amargurado destes miúdos.

No entanto pelas características especiais que têm, necessitam obrigatoriamente de cuidados especiais e pelo que tenho aprendido, treino após treino, jogo após jogo, factores como a postura, a linguagem, o distanciamento ou proximidade, a disciplina imposta, a definição de regras e sobretudo a capacidade de gerir várias situações problemáticas são essenciais para um bom desempenho nessa função, não só de treinador mas também como educador.


Por tudo isto é fundamental que quem os acompanha pense para lá do jogo, entenda a natureza social desse fenómeno e mais que um treinador seja um apoio, uma ajuda para a reestruturação e delineação da vida dessas crianças. É necessário adoptar posturas diferentes, adaptar as nossas ideias e projectos a essa realidade, por vezes abdicar de certas certezas de modo atingir objectivos de maior escala e acima de tudo ter paciência, dedicação, sacrifício e vontade de conseguir um bom trabalho!

1 comentários:

Francisco Bogalho disse...

Boa tarde .
Acho que tens razao em tudo o que dizes,e podes ter a certeza que quanto mais pequenos eles sao, maiores sao as dificuldades de os entender e compreender ,mas muito maior é a alegria de o conseguir.
Parabens pelo trabalho.