Humildade

Há uns dias li um artigo que falava sobre um estudo acerca do QI de atletas de top, pois o médico que acompanha a equipa do Chelsea decidiu medir a inteligência dos seus jogadores, no final Frank Lampard distanciou-se dos demais e conseguiu um resultado acima da média, superando os registos do próprio médico.

Para quem conhece o futebol “quadriculado” de Lampard a associação não é estranha. Mas não é da ligação entre este resultado e a inteligência em jogo que vos quero falar, quero sim fazer um elo de ligação entre esse resultado e a forma com que essa indicação pode pautar a vida fora do terreno de jogo, algo que quanto a mim funciona como factor X na construção de um futebolista e na diferenciação deste pelos demais.

Para mim essa inteligência extra-futebol é algo essencial para todos os que desejam alcançar um patamar superior no futebol mundial, essa característica, esse traço que afecta a personalidade e que molda princípios como a humildade determina e afecta as várias, grandes ou pequenas, decisões que um futebolista tem de tomar durante a sua carreira, sendo ainda mais incisiva na construção do seu dia-a-dia como profissional do futebol.

Para melhor perceberem o que vos estou a tentar transmitir pensem em Pelé, não o Rei brasileiro mas o médio português do FC Porto que recentemente foi emprestado ao Portsmouth. Vítor Hugo Gomes Passos ganhou a alcunha de Pelé, ou Pelezinho no Boavista FC, onde deu os seus primeiros passos como jogador, aos treze anos foi dispensado dos «axadrezados» e ingressou no SC Salgueiros, no «Salgueiral» virou médio, cresceu como jogador e com dezassete anos representava a equipa sénior na 2ª Divisão B juntamente com todos os outros juniores devido à crise que quase destruiu a equipa nortenha. Foi então que rumou ao SL Benfica, andou pouco tempo pela Luz e aqui começou a revelar os primeiros sintomas dessa personalidade que lhe pode afectar o grande potencial que tem como jogador, nos «encarnados» criou problemas, falou-se então do cachecol do FC Porto que mantinha no quarto e acabou por sair sem mostrar muito futebol rumando de novo ao norte, agora com o Vitória SC como destino.

Na equipa da cidade berço atinou durante algum tempo, na época Norton de Matos referiu que "tem uma personalidade muito forte, aquilo que algumas pessoas do futebol chamam até de má educação”, foi chamado por Vítor Pontes e Manuel Cajuda à equipa principal, ganhou notoriedade com a ida à selecção no Torneio de Toulon e ao Mundial Sub-20 e despertou o interesse da Europa tendo viajado para Itália, respondendo à chamada do poderoso Inter de Milão.

Em Milão deu nas vistas, jogou pela equipa principal dos nerazzurri e Portugal ficou de olho na pérola que tinha exportado. Numa época o seu valor cresceu imenso para além dos 1,5 Milhões que o Inter pagou ao Vitória SC e acabou envolvido na transferência de Ricardo Quaresma para o clube de José Mourinho, chegando ao Dragão com a difícil missão de substituir o “relógio” Paulo Assunção.

Com todos a esperarem uma rápida afirmação no onze de Jesualdo Ferreira Pelé demorou a impor-se, demorou tanto que acabou por perder o lugar no onze e mesmo o lugar no banco de suplentes, em meia época como «dragão» nunca revelou o talento que se esperava, jogou pouco pela equipa principal, quem o viu na Liga Intercalar, viu um jogador apagado, sem vontade, insatisfeito e sem ponta de humildade, mostrando claramente que se achava melhor do que a prova em que estava a competir, mesmo com Jesualdo Ferreira a assistir pouco fez para se mostrar e as palavras do professor quando referiu que «O Pelé tem que trabalhar muito, muito, muito para numa circunstância de falha, ou em alternância por causa do rendimento, poder jogar no lugar do Fernando», mostram a imagem que o médio português deixou no Dragão.

Mais uma vez insatisfeito Pelé quis sair, a notícia do seu empréstimo ao Portsmouth chegou e poucos se opuseram à sua saída, afinal nunca foi um elemento em destaque no plantel portista. Com a ida para os pompeys Pelé chega ao seu quarto clube como sénior depois do Vitória de Guimarães, Inter de Milão e Porto quando ainda tem apenas 21 anos.

Sem duvidar das capacidades futebolísticas de Pelé duvido das suas capacidades mentais para aguentar uma carreira ao mais alto nível, espero que esteja enganado para bem do futebol português e que no futuro as decisões e comportamentos de Pelé contribuam para o seu crescimento como pessoa e jogador.

2 comentários:

Rafael Antunes disse...

Na minha opinião, a montanha russa em que se tornou a curta carreira (pelo menos no que respeita ao alto rendimento) deste jogador com potencial, poderá ser o mais que provável reflexo da montanha russa que foi a sua formação.

Quanto às suas características pessoais aqui descritas, nomeadamente soberba e prepotência, poderão advir de valores transmitidos nessa mesma formação. Embora no aspecto da personalidade a formação envolver mais do que a restritamente desportiva.

É por exemplos como este que devemos ter outra atitude na formação, rever bem os valores e também métodos que se estão a transmitir e aplicar hoje em dia. Assim não comprometeremos o futuro do nosso futebol, e dos seue interpretes.

Cumprimentos
Rafael Antunes

Geração Futebol disse...

Olá Rafael,

Também acredito que alguns erros na formação possam afectar este tipo de comportamento, não sobre o jogador, mas sobre o Homem, plano que passa muitas vezes ao lado dos formadores deste país.

Urge por isso estar atento e consciente das responsabilidade que temos quando somos parte da formação de jovens.


Cumprimentos e obrigado pela participação,
Dário Pinto