A subversão de uma ideia

A generalidade da crítica futebolística dirá que o Inter fez um jogo competente, neste “primeiro round” frente ao FC Barcelona.

Para tal, muito terá contribuído a forma eficaz como o Inter defendeu, optando por povoar o seu meio campo defensivo com muitos elementos, concentrando-os sobretudo em zonas centrais. Eliminando Messi através de um preenchimento dos espaços que o astro Argentino costuma pisar com maior frequência.
E posteriormente simplicidade nos movimentos ofensivos. Procura incessante por passes de ruptura para as costas da defensiva Catalã na tentativa de explorar a velocidade e intuição de avançados com Milito, Etoo e Pandev e procurando tirar partido da forma aberta como se costuma posicionar a equipa do Barcelona, explorando portanto os “espaços” que derivam desse futebol ofensivo e corajoso nos momentos de perda da posse.

Contudo tenho que admitir que fiquei um pouco desiludido, não com o Inter mas sim com José Mourinho.
Julgo até que o Futebol Italiano e a exigência de resultados têm obrigado Mourinho a adulterar as suas ideias estruturais em termos de concepção de Jogo.

Deste sempre que acompanho com grande interesse a carreira de José Mourinho.
E quer nas suas entrevistas, quer em campo, José Mourinho era fiel ás suas ideias.
Sempre defendeu que é preciso ganhar jogando bem. Naturalmente que jogar bem é uma definição subjectiva, cada treinador terá uma definição muito sua do que é jogar bem.
Mas Mourinho sempre foi claro: jogar bem passa pela interligação entre pressão alta (zona pressing) e posse de bola.
Ou seja, dois conceitos diferentes mas que se interligam. Ou seja o pressing, segundo a concepção de Mourinho, seria sempre um meio para atingir um fim: a posse de bola.

No fundo Mourinho não renegava o resultado, a importância do resultado,que está naturalmente inerente ao futebol de alto rendimento, mas obrigava-se a consegui-lo de forma estética e baseado em princípios próprios, bem definidos e os quais parecia defender até á morte.

Contudo a aventura de Mourinho em Itália tem alterado a imagem deste fantástico treinador.
A pressão do resultado tem-no afastado, ainda que de forma “sorrateira”, do futebol que defendeu como sendo o seu.
Pouco a pouco tem-se perdido a estética, tem-se perdido o gosto pelo pressing alto para se conseguir o mais importante do Jogo: o ter bola, a posse de bola.

O jogo contra o Barcelona é o exemplo máximo disso mesmo.
É verdade que é muito difícil, actualmente, jogar contra o Barcelona de igual para igual, pois nos Catalães está enraízada uma cultura de jogo muito forte, uma identificação de todos os jogadores com um jogar muito próprio (o “titi taka” de Guardiola).
Ainda assim, julgo que Mourinho acaba por subverter em demasia as suas ideias.
Apresentou-se em San Siro num 4-2-3-1, em bloco baixo, com a equipa a defender no seu meio campo defensivo para aí, nesse espaço, ser agressivo e pressionante na bola.
E abdicou da posse, da circulação inteligente da bola, para “investir” excessivamente em passes em profundidade, a explorar as capacidades individuais dos seus 3 homens da frente.
Aos 10, 15m de jogo o Inter já contabilizava 5 foras de jogo contra 0 do Barcelona, Motta já havia tentado no momento da recuperação da posse...colocar de imediato a bola nas costas da defensiva catalã.
Ou seja, Mourinho acaba de subverter por completo os seus princípios.

E se em cada jogo existe a componente estratégica do jogo, ou seja pequenas adaptações que permitam tirar partido das fraquezas dos adversários, a verdade é que Mourinho mais do que operar alterações do foro estratégico, operou alterações profundas a nível da sua concepção de jogo, algo que já era visível na Liga Italiana mas que ficou ainda mais patente neste jogo da Champions.

Será esse o preço a pagar para conseguir a tão desejada Liga dos Campeões pelos Nerazurri?


Assinado
Nélson Oliveira

2 comentários:

R. Galeiras disse...

Bom post.
Penso que Mourinho não mudou, mudou foi o plantel e as caracteristicas dos jogadores á sua disposição.
Em Itália as equipas são conhecidas pela forma como defendem, bem ou mal isso é outra história.
Mourinho, opta por um bloco baixo, até porque não tem jogadores para outros voos e joga no contragolpe com 3 avançados muito moveis e rápidos.
Demonstra que tácticamente é unico. As suas ideias continuam lá e contra equipas que jogam o jogo pelo jogo consegue por o Inter a jogar como ele gosta, quem viu o jogo contra o Chelsea tem de reconhecer isso.
No entanto, neste jogo encarou o jogo como tinha de ser encarado, fazer um bom resultado contra uma equipa muito forte, do melhor que já se viu nos ultimos anos. As transições simples e rápidas fazem o seu futebol parecer básico, mas fazer com que isso resulte contra uma equipa que sem bola é optima e pressiona muito bem, não é facil.

Bernardo disse...

também me parece que a opção do mourinho foi a mais inteligente face aos jogadores que tem e à diferença de capacidade destes para jogar em posse, quando comparados com o barcelona. não é possível a nenhuma equipa, neste momento, lutar com o barcelona com as mesmas armas, com o mesmo tipo de jogo. e mourinho percebeu-o bem. não quer dizer que não goste da posse de bola e da pressão alta. é ver as suas declarações a seguir ao jogo com o cska, onde afirma que depois do golo a equipa geriu como ele gosta, com bola, em posse. quanto à pressão alta, o comportamento táctico da defesa tem de ser exemplar, e nisso os centrais do inter estão longe do que é necessário. é ver o jogo de ontem e ver sempre que o barça se acercava da área, lúcio a desligar da linha defensiva e a afundar dentro da área, desfazendo qualquer hipótese de a equipa pressionar mais em cima. os centrais do inter, lucio em particular, referenciam-se demasiado no adversário directo em vez de na bola e nos companheiros...